terça-feira, 22 de julho de 2008

O Testemunho do Novo Testamento sobre a Origem e a Natureza da Igreja




1. Jesus e a Igreja
A mensagem de Jesus não anunciava imediatamente o advento da Igreja, mas do Reino de Deus (ou do “Reino dos céus”). Isto é comprovado estatisticamente no fato de que, das 122 passagens do Novo Testamento que falam do Reino de Deus, 99 pertencem aos evangelhos sinóticos, e destas últimas 90 são diretamente palavras de Jesus. Assim se pôde compreender a frase de Loisy que se tornou popular: “Jesus anunciava o Reino, e o que veio foi a Igreja”.[1]
Sob o ponto de vista histórico, esta contraposição entre Reino e Igreja não corresponde à realidade, pois, segundo a concepção judaica, a atividade de reunir e purificar os homens para o Reino faz parte do Reino de Deus. Justamente se Jesus considerava que o fim estava próximo, ele devia ter tido a intenção de reunir o povo de Deus da era da salvação. Na profecia posterior ao exílio, o advento do Reino é precedido da chegada do profeta Elias ou do “anjo” que permanece anônimo e prepara o povo para o Reino. Justamente pelo fato de ser o mensageiro do Messias que se aproxima, João Batista reúne a comunidade escatológica e a purifica. De modo semelhante e precisamente em virtude de sua crença escato­lógica, a comunidade de Qumran se reuniu como comunidade da Nova Aliança.
Jesus inaugura o Reino de Deus e seu objetivo é congregar o povo de Deus. Ele mesmo é a obra de Deus em ação, sua chegada, seu reinar. “Ele é o Verbo que se fez carne e veio morar entre nós.” (cf. Jo 1, 14a) Surge assim, a conexão com Jesus, com sua pessoa: ele próprio é a proximidade de Deus. Onde está ele, está o Reino de Deus. Neste sentido devemos modificar a frase de Loisy: Prometeu-se o Reino de Deus e veio Jesus. Somente assim é possível compreender corretamente o paradoxo da promessa e do cumprimento. Ele veio, com efeito, para congregar os que estavam dispersos (cf. Jo 11,52; Mt 12,30). Aqui aparecem já dois elementos de grande importância para a compreensão futura da Igreja: o dinamismo do tomarem-se Um, da mútua aproximação através do encontro com Deus, é, para Jesus, específico do novo povo de Deus. E mais ainda: o mais íntimo ponto de reunião deste novo povo é Cristo: este povo só se tomará verdadeiramente povo enquanto for chamado por Cristo e responder à sua chamada, à sua Pessoa.
Porém, aqui poder-se-ia observar duas coisas: a primeira é que entre as muitas imagens que Jesus utiliza para designar este novo povo: rebanho, convidados ao banquete de núpcias, semeadura, casa de Deus, cidade de Deus, existe uma que se destaca como preferida: a da família de Deus. Deus é o Pai da família, Jesus é o dono da casa. A segunda observação, porém, encaminha a um novo tema: os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine uma oração comum, a oração do discipulato. Com efeito, as orações próprias dos grupos religiosos de então são uma característica essencial de constituírem uma comunidade. Assim este pedido indica que os discípulos têm consci­ência de haver formado uma comunidade que deriva de Jesus. Eles ali estão como a célula inicial da Igreja, e mostram, ao mesmo tempo, que a Igreja é uma comunidade unida essencialmente pela oração - a oração com Jesus, à qual proporciona uma abertura comum para Deus.
Daí decorre naturalmente mais duas conseqüências. Em primeiro lugar, deve-se ter presente que a comunidade dos discípulos não forma um grupo amorfo. Em seu centro se encontra o núcleo claramente definido dos doze, aos quais, segundo S. Lucas (10,1-20), se acrescenta ainda o círculo dos setenta ou setenta e dois discípulos. Observa-se que os doze só recebem o título de “apóstolos” depois da “ressurreição”. Antes dela chamam-se simplesmente “os Doze”. Este número que os reúne em uma comunidade claramente delimitada é de tal importância, que é completado outra vez depois da traição de Judas (At 1,15-26). Marcos descreve sua vocação, dizendo expressamente: “e Jesus constituiu Doze” (3,14). Sua primeira missão consiste simples­mente em ser doze, e a ela se acrescentam, logo a seguir, mais duas funções: “para estarem com Ele e para enviá-los” (Mc 3,14). O simbolismo Doze é, portanto, de importância capital: é o número dos doze filhos de Jacó, o número das tribos de Israel. Ao formar o círculo dos Doze, Jesus se apresenta como o patriarca de um novo Israel, cuja origem e fundamento os Doze devem ser. Não se poderiam expressar de modo mais claro os inícios de um novo povo, um povo que se forma agora não já por descendência física, mas através do “estar com Jesus”, que os Doze recebem e que Ele os envia a transmitir. Aqui também já se pode reconhecer o tema da unidade e da multiplicidade, predominando, porém, completamente, o aspecto do povo novo e uno expresso através da comunidade indivisível dos Doze, que somente como doze realizam o seu simbolismo - a sua missão.
O grupo dos Setenta ou Setenta e Dois, do qual São Lucas nos fala, completa este simbolismo: setenta ou setenta e dois era, segundo a tradição judaica (Gn 10; Ex 1,5; Dt 32,8), o número das nações (não judias) do mundo. Atribuía-se a versão grega do Antigo Testamento surgida em Alexandria ao labor de setenta (ou setenta e dois) tradutores, querendo-se expressar que, por meio deste texto grego, o livro sagrado de Israel se transformaria na Bíblia de todas as nações, como aconteceu efetivamente, quando o cristianismo fez sua esta tradução. Os setenta discípulos significam que Jesus reivindica para si toda a humanidade, que deve tomar-se sua discípula: é o sinal de que o novo Israel abrangera todos os povos da terra.
A oração comum que os discípulos receberam de Jesus conduz a uma outra pista. Durante sua vida terrena, Jesus tomara parte com os Doze no culto do templo de Israel. O Pai-nosso foi o primeiro ponto de partida de uma comunidade segregada pela oração com Jesus e a partir de Jesus. Na noite anterior à sua paixão, Jesus dá ainda outro passo decisivo: transforma a páscoa de Israel em um culto totalmente novo, o qual logicamente os separará da comunidade do templo e fundará definitivamente um povo da “Nova Aliança”. As palavras da instituição da Eucaristia, seja na tradição de Marcos ou na de Paulo, têm sempre alguma coisa a ver com os acontecimentos da Aliança; remetem ao Sinai e depois à Nova Aliança anunciada por Jeremias. Os sinóticos e o Evangelho de João estabelecem, além disso, ainda que de modo diferente, a relação com o acontecimento da páscoa, e finalmente ressoam as palavras de Isaías sobre o Servo sofredor do Senhor. Com a páscoa e o rito da Aliança do Sinai, são retomados os dois atos Fundantes, pelos quais Israel se tornou um povo e por sua celebração litúrgica sempre de novo se constitui como tal. A ligação deste fundamento cultual, sobre o qual se baseia e do qual vive Israel, com as palavras-chave da tradição profética, funde o passado, o pre­sente e o futuro na perspectiva de uma Nova Aliança. O sentido de tudo isto é claro:
“Da mesma forma como o antigo Israel outrora venerava no templo seu centro e garantia de sua unidade e realizava vitalmente essa unidade na celebração comum da páscoa, assim também esta nova refeição deve ser o vínculo de união de um novo povo de Deus. Já não precisa localizar seu centro em um templo exterior... O corpo do Senhor, que é o centro da Ceia do Senhor, é o templo novo e único que funde os cristãos em uma unidade muito mais real do que aquela que um templo de pedra poderia oferecer.”[2]
Deve-se incluir aqui também outra série de textos da tradição dos Evangelhos. “Tanto Mateus como Marcos e também João transmitiram (ainda que em contextos diferentes) uma frase de Jesus sobre o templo destruído que ele reedificaria em três dias, substituindo­-o por outro melhor (Mc 14,58 e Mt 26,61; Mc 15,29 e Mt 27,40; Jo 2,19; cf. Mc 11,15-19 e paral.; Mt 12,6). Tanto para os sinóticos como para João é claro que o novo templo, ‘não feito por mãos humanas’, é o corpo glorioso do próprio Jesus...” Isto significa que “Jesus anuncia o término do antigo culto e com ele o do antigo povo eleito e da antiga ordem de salvação, e promete um culto novo e superior, cujo centro será seu próprio corpo glorioso”.[3]
Que se segue de tudo isto? A instituição da santíssima Euca­ristia na noite anterior à Paixão não pode ser vista como um ato cultual qualquer, mais ou menos isolado. Ela é a conclusão de uma aliança e como aliança é a fundação concreta de um novo povo, que se torna povo por sua relação de aliança com Deus. É mediante o acontecimento eucarístico, que Jesus incorpora os discípulos em sua relação com Deus e com isto também em sua missão, que está dirigida para “os muitos”, para a humanidade de todos os lugares e de todas as épocas. Esses discípulos se tomam “povo” através da comu­nhão no corpo e no sangue de Jesus, que é também comunhão com Deus. A idéia de aliança no Antigo Testamento, que Jesus incorporou em sua pregação, recebe um novo centro: sermos um no Corpo de Cristo. Assim, o povo da Nova Aliança se torna povo a partir do corpo e do sangue de Cristo: é povo somente a partir deste ponto central. Só pode ser chamado “povo de Deus”, porque através da comunhão com Cristo se abre a relação para com Deus, que o homem por si só não pode produzir. Deste modo, a Eucaristia, enquanto origem e centro permanentes da Igreja, une os “muitos” que agora se tomam povo em união com o único Senhor e seu corpo uno e único, de onde, conseqüentemente, resultam a unicidade da Igreja e sua unidade. Mas as múltiplas celebrações nas quais se realizará esta única Eucaristia apontam também para a multiplicidade de formas deste único Corpo. É evidente, porém, que não se podem tomar estas múltiplas celebrações como realidades autônomas, independentes e paralelas entre si, mas sempre e exclusivamente como forma de presença do único e mesmo mistério.
[1] Cf. RATZINGER, J. Compreender a Igreja Hoje: Vocação para a Comunhão. 2. Ed. Petrópolis: Vozes, 2005 (Tradução D. Mateus Ramalho Rocha, OSB), p. 25.

[2] RATZINGER, J. O Novo Povo de Deus. São Paulo, 1974, p. 79
[3] Ibid, p. 79s.

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